Domingo, 14 de Agosto de 2011

Pablo Neruda

Pablo Neruda, Ode ao Gato

 

 

Os animais foram

inacabados,

longos de cauda, tristes

de cabeça.

pouco a pouco foram-se

formando,

tornando-se paisagem,

adquirindo sinais, graça, voo.

O gato,

só o gato

apareceu completo e orgulhoso:

nasceu completamente terminado,

anda sozinho e sabe o que quer.

 

O homem quer ser peixe e pássaro,

a serpente gostaria de ter asas,

o cão é um leão confuso,

o engenheiro quer ser poeta,

a mosca estuda para andorinha,

o poeta trata de imitar a mosca,

mas o gato

quer ser somente gato

e todo o gato é gato

desde o bigode ao rabo,

desde pressentimento a ratazana viva,

desde a noite escura até aos seus olhos de ouro.

 

Não há unidade

como ele,

não tem

a lua nem a flor

tal contextura:

é uma coisa única

como o sol ou o topázio,

e a elástica linha em seu contorno

é firme e subtil como

a linha da proa de uma nave.

Seus olhos amarelos

deixaram uma única

ranhura

para lançar as moedas da noite.

 

Oh pequeno

imperador sem orbe,

conquistador sem pátria,

mínimo tigre de salão, nupcial

sultão do céu,

das telhas eróticas,

o vento do amor

na tempestade

reclamas

quando passas

e pousas

quatro pés delicados

no chão,

cheirando,

desconfiando

de tudo o que é terrestre,

porque tudo

é imundo

para o imaculado pé do gato.

 

Oh fera independente

da casa, arrogante

vestígio da noite,

preguiçoso, gimnástico

e alheio,

profundíssimo gato,

polícia secreta

das habitações

insígnia

de um

veludo já desaparecido,

certamente não há

enigma nesse teu modo,

não és talvez mistério,

todo o mundo te conhece e tu pertences

ao habitante menos misterioso,

talvez todos o creiam,

todos se creiam donos,

proprietários, tios,

de gatos, companheiros,

colegas,

discípulos ou amigos

do seu gato.

 

Eu não.

Eu não concordo.

Eu não conheço o gato.

Eu tudo sei, a vida e seu arquipélago,

o mar e a cidade incalculável,

a botânica,

o gineceu com seus extravios,

o por e o menos da matemática,

as depressões vulcânicas do mundo,

a pele irreal do crocodilo,

a bondade ignorada do bombeiro,

o atavismo azul do sacerdote,

mas não posso decifrar um gato.

Minha razão resvalou na sua indiferença,

têm seus olhos números de ouro.

 

 

 


publicado por Maria José Rijo às 23:32
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